sábado, 20 de dezembro de 2014

Volta à flor

flor
que vira fruto
que vira flor
que vira luta
que vira sonho
que vira doce
que vira som

que furta-cor

que vira o sol
que mira o mar
que vira o céu
que vira lírio

que move o sonho
que franze o cenho
que gira o mundo
que gira o sol

que vira febre
que tira a fome
que troca o nome
que vira forma

que vira fel
-que fira a si!-
que volta a ser
que vira
flor

sábado, 8 de novembro de 2014

Bula de veneno

Uma pitada de amoníaco
Uma dose bem degenerada
[de soda cáustica
Uma intoxicação alimentar
Uma forte dor no peito
(causada por dores passadas)
Uma ânsia de vômito
E o mínimo sentimento de culpa:
- eis o homicídio perfeito.

Transparência

Tenho a alma transparente
Bem dotada de mistérios:
De uma dor escancarada,
Tão carente quanto estéril,
Cuja essência é exalada
Pelos olhos, sem critério.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Resiliência

uma cicatriz exposta
um cancro recorrente
um câncer que se alastra
pelas incongruências da vida

e um coração
sangrando
aberto
exposto

 ainda vivo

sábado, 25 de outubro de 2014

Declínio vertical

     Corpos

     letárgicos
     litúrgicos
     lisérgicos

     à postos
     de um
     possível

     colapso

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Ectoplasma

abriu-se um abismo espaço
entre as égides de minhas preces:
um átomo tornou-se um átimo
e um verso tornou-se um vértice

já não aguento pois os oxímoros
nem nossos neurotransmissores
sons de toxoplasmose plácida
sensações de taxidermias

- e tudo,
tudo torna à mesma
homeostase

osmótica

estática

Sussuros

sem que um sinta
o que o outro sente
os corpos sussurram
sucintamente -
no seio esparso
dessa noite
(silenciosa
e quente).

sábado, 13 de setembro de 2014

[Sarau Brasil]

Como postei no facebook, vou postar aqui também:


No começo desse ano, recebi meu primeiro prêmio literário - o segundo lugar em um concurso de poesia, organizado pela Editora LiteraCidade. E, em meados de junho, uma conhecida minha me sugeriu que eu participasse de um outro concurso literário, dessa vez organizado pela Editora Vivara. O concurso iria selecionar 250 poemas de todo o Brasil para integrar a coletânea Sarau Brasil 2014, e eu decidi participar no último dia de inscrição. E qual não foi a minha surpresa ao saber que não apenas eu, mas também duas colegas minhas - cujos poemas eu admiro muito -, fomos selecionadas nesse concurso! Enfim, hoje eu recebi em mãos os exemplares dessa coletânea linda, e queria compartilhar aqui com todo mundo que me deu - e ainda me dá - o maior apoio! Meu sincero muito obrigada a todas as pessoas que tem incentivado a minha produção literária, e que tem me acompanhado em meus processos criativos! E, enfim, era isso!

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Silêncio...

fez-se silêncio
naquela noite de outono.
pude ouvir senão
o silenciar das aves
e o brilho pesado da noite.

o manto cobriu-se de penas,
e os olhos, memórias das cenas,
de repente eram pérolas
no meu jardim.

domingo, 27 de julho de 2014

Beijo de chuva

Você me perguntou se eu já havia beijado na chuva
Eu disse que não
Foi nosso primeiro beijo
E desde então eu não gosto de dias chuvosos...

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Cotidiano

Abriu o jornal
folheando com a mão
- atento às notícias já
previstas de antemão -,
com o gosto amargo
de bile na boca
e o nó do sapato
amarrado em tensão...
o aquário vencido,
o casaco no abrigo,
o café desaurido
e as cartas
no chão.

 Que importavam?
a vida no papel
é meramente
substantiva.

domingo, 18 de maio de 2014

Calafrio

Por entre as frestas
da janela aberta
o vento invade
o ambiente alheio:
o frio cortante
atravessa a carne
como a vingança
atravessa o seio.
E o corpo oscila
com este receio...

(Será aviso?
ou devaneio?)

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Fam(íli)a

entre parent(es)es
não se diz uma (vír)gula
não se confessa uma (dú)vida
nem se conta uma (fá)bula

- e se (inter)roga, em oração,
a liberdade do pre(ju)dicado...

sábado, 5 de abril de 2014

Chuviscos (II)

                         Ao Pessoa

já não sei se chuva ou pôr-do-sol:
só sei que o tempo é determinante.

domingo, 30 de março de 2014

Êxtase

...e em um décimo de segundo
tangenciando o infinito
eu me sinto tocar a vida,
a alma, o âmago e o abismo!

e é tanta chama, tanto lastro,
tanto rio de concretude
que até me sinto alcançar
a mais completa plenitude!

e inicio um reencontro
interior e anterior
e avisto o meu passado
 mas sem raiva!
e sem rancor!

pois cá vivo num momento
de deslumbre e de luto...
(até quando dura a hora
em que contemplo
o absoluto?)

domingo, 23 de março de 2014

Chuviscos

chove cá dentro de mim também:
é chuva mansa, acolhedora,
da lembrança do que já passamos juntas.

dessa nossa ferida inicial,
da aproximação repentina e imediata
- da simplicidade tão almejada de infância! -
e do amadurecimento tardio e doloroso...

-- sabe que essa tristeza é minha favorita?

Sintaxe

A poesia
tem maneiras
muito próprias
de expressão:
certamente
ela obedece
à sintaxe
da emoção...

Das flores...

Das flores que trago nas mãos...
Uma, o meu dedo espeta!
Outra, minha face enrubesce!
E outra, meu riso desperta...

Mas esta flor invisível...
Esta, que sempre me atenta,
Esta, que nunca me esquece...

Bem sei: é perpétua!

sexta-feira, 7 de março de 2014

Epitáfio

Li as letras
daquela lápide
(que tão latente
me dizia):
que teu corpo,
abandonado,
tão friamente
ali jazia.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Chocolate

E qual a graça do chocolate
guardado na geladeira?
Eu particularmente prefiro
quando posso comer um chocolate
- ao leite, por favor! -
e senti-lo derreter por dentro.

E até de senti-lo grudar nos dedos.

Gosto desta transferência de calor,
do desprendimento de átomos
que se soltam e se espaçam,
e que se ligam à pele pelo simples
contato das mãos.

Não sei, mas acho que, quando frio,
o chocolate também é friamente engolido:
sem ser saboreado ao certo.